Dossiê setorial nº 02 Café × EUDR e Mercosul–UE Agosto de 2026 Amostra pública

O café capixaba tem dois relógios, e o mais curto é o do EUDR

O grão verde já entra na União Europeia com tarifa zero — o acordo Mercosul–UE não muda nada nisso. O que ele abre é o café torrado e o solúvel. Só que, antes de a tarifa cair, uma outra data chega: 30 de dezembro de 2026, quando nenhum café entra na Europa sem a coordenada da lavoura que o produziu.

Herculano Pelição Batista · Consultoria em Relações Internacionais
Fontes públicas consultadas em agosto de 2026 · 16 referências ao final
Documento de amostra: análise setorial, não recomendação para empresa específica

Efeito 1 · Grão verde Ganho zero

Café verde já entra na UE com alíquota zero. O acordo não acrescenta nada ao produto que o Espírito Santo mais exporta hoje.

Efeito 2 · Torrado e solúvel Ganho grande

Torrado paga 7,5% e solúvel 9%. As duas alíquotas caem a zero em cerca de quatro anos — é o valor que hoje fica com a indústria europeia.

Efeito 3 · EUDR Risco que vence antes

Desde 30 de dezembro de 2026, operador grande ou médio só coloca café no mercado europeu com geolocalização da lavoura e declaração de diligência devida.

01Onde o setor está

69,1%da área brasileira de conilon está no Espírito Santo — 286,7 mil hectares
13,8 mide sacas de conilon colhidas em 2025, alta de 40,3%
424,8 mil hade café no estado, somando conilon e arábica — a 2ª maior área do país
US$ 1,1 biexportados de janeiro a agosto de 2025, para 74 países
131 milfamílias produtoras de café no estado

A cafeicultura é a principal atividade agrícola do Espírito Santo e está presente em todos os municípios, exceto Vitória. O estado lidera o conilon com folga — 65,4% da produção nacional — e mantém 138,1 mil hectares de arábica na região de montanhas.

Entre os destinos do grão capixaba aparecem Turquia, Estados Unidos e Bélgica. Esse terceiro nome merece atenção: a Bélgica não bebe o café que compra. Antuérpia é o principal porto e armazém cafeeiro da Europa, o que significa que a exposição capixaba ao mercado europeu — e, portanto, ao EUDR — é maior do que a lista de países sugere.

02O que o acordo faz — e o que não faz

Aqui a geometria é o inverso da do dossiê anterior, sobre rochas. Lá, a tarifa era baixa e o ganho estava na máquina importada. Aqui, no produto principal, não existe tarifa para eliminar: o café verde já entra na União Europeia com alíquota zero.

ProdutoTarifa europeia hojeCom o acordo
Café verde (grão cru)0%Sem mudança — já era livre
Café torrado7,5%Cai a zero em cerca de 4 anos
Café solúvel9%Cai a zero em cerca de 4 anos

É por isso que o Brasil exporta grão e a Europa exporta café. A torra, a moagem e o preparo acontecem do outro lado do Atlântico porque a tarifa europeia sempre encareceu o produto pronto e liberou a matéria-prima — um desenho tarifário clássico de proteção à indústria de transformação.

Leitura

O acordo desmonta essa proteção em quatro anos. Para quem só embarca grão verde, ele é irrelevante. Para quem torra, mói ou produz solúvel — ou pretende fazê-lo —, é a primeira vez em décadas que o produto acabado brasileiro chega à Europa sem penalidade tarifária. A janela existe, mas ela se abre depois do prazo do EUDR, não antes.

03O EUDR em datas, não em manchetes

O Regulamento (UE) 2023/1115 já foi adiado uma vez e simplificado outra. Vale separar o que mudou do que não mudou.

MarcoSituaçãoO que significa
Operadores grandes e médios30/12/2026A partir dessa data, colocar café no mercado europeu exige declaração de diligência devida com a geolocalização das lavouras de origem.
Micro e pequenas empresas30/06/2027Seis meses a mais — mas quem vende para um operador grande é cobrado pelo prazo dele, não pelo próprio.
Revisão de simplificaçãoPublicada em 4/05/2026Corta cerca de 75% do custo de conformidade e dispensa empresas a jusante de submeter declaração no TRACES NT. Não alterou as datas.
Brasil no ranking de riscoRisco padrãoJunto com outros 49 países. Não é risco alto, mas também não é o risco baixo que permitiria diligência simplificada: vale a diligência completa.

O conteúdo da exigência é simples de enunciar e trabalhoso de cumprir: provar que o café não veio de área desmatada depois de 31 de dezembro de 2020, que a produção é legal, e apontar onde ele foi produzido — coordenada por coordenada.

O que a simplificação realmente fez

Ela aliviou a papelada de quem está no meio e no fim da cadeia, concentrando a obrigação no primeiro operador que coloca o produto no mercado europeu. Para o produtor e o exportador brasileiros isso não é alívio nenhum: são eles que continuam tendo de fornecer o dado que o importador vai declarar. A conta de baixo não mudou.

04A conta que quase ninguém fez: 131 mil famílias

Aqui está o problema específico do Espírito Santo, e ele não aparece em nenhuma análise nacional. Cerca de 73% dos produtores capixabas são de base familiar, com propriedade média de 8 hectares.

Esse número de oito hectares é decisivo. O EUDR exige ponto de geolocalização para talhões pequenos, mas polígono — o desenho do contorno da área — para talhões acima de quatro hectares. Com média de oito, boa parte da cafeicultura capixaba cai do lado caro da régua. Não basta uma coordenada de GPS tirada na sede da propriedade: é preciso o traçado do talhão.

O último item é o mais subestimado. O conilon capixaba costuma ser comprado, misturado e padronizado antes do embarque — é assim que se forma um lote comercial. Mistura sem registro destrói rastreabilidade. A partir de 2027, um lote sem origem identificável não é um lote com desconto: é um lote que não entra.

05A peça que já existe e poucos usam: Selo Verde ES

O Espírito Santo não está começando do zero. O estado implanta a plataforma Selo Verde, pública e gratuita, que monitora rastreabilidade e conformidade ambiental combinando sensoriamento remoto — imagem de satélite e drone — com inteligência artificial, para café, cacau e florestas plantadas.

Dois detalhes a favor. O primeiro: a plataforma distingue supressão autorizada de supressão ilegal, o que protege o produtor que desmatou dentro da lei e evita que ele seja tratado como infrator por um algoritmo europeu. O segundo: a implantação capixaba tem apoio do AL-INVEST Verde, programa financiado pela própria União Europeia — quem cobra a conformidade está ajudando a pagar a ferramenta que a produz.

Onde isto morde

Ter a plataforma disponível não é o mesmo que estar em conformidade. Alguém precisa cadastrar cada talhão, conferir o polígono, cruzar com o CAR e manter o dado vivo a cada safra. Esse trabalho não é do satélite: é de campo, de cooperativa e de escritório. É exatamente o tipo de tarefa que uma cadeia de 131 mil famílias não faz sozinha — e que, feita cedo, vira vantagem comercial em vez de custo.

06O que fazer nos próximos 90 dias

Sequência para um exportador, cooperativa ou torrefador do estado, em ordem de urgência:

#AçãoQuem fazPrazo
1Mapear a exposição real à UE: quanto do volume vai para a Europa, incluindo o que passa por Antuérpia e por tradings intermediárias.Comercial2 semanas
2Classificar seus compradores entre operador grande/médio (prazo de dezembro de 2026) e pequeno (junho de 2027). O prazo que vale para você é o do cliente.Comercial3 semanas
3Aderir ao Selo Verde e começar o cadastro dos talhões que já respondem pela maior parte do volume.Técnico de campo45 dias
4Auditar a mistura: onde, no seu fluxo, lotes de origens diferentes se juntam sem registro — e o que muda para preservar a identidade da origem.Operações45 dias
5Fechar a pasta de legalidade: CAR, reserva legal e licenças dos fornecedores recorrentes, com guarda organizada.Administrativo60 dias
6Reabrir a conversa de torra: com a tarifa de 7,5% caindo a zero, refazer a conta de exportar torrado ou solúvel para a Europa.Direção90 dias

As duas últimas linhas parecem desconectadas, e não são. Só chega ao mercado de café torrado europeu quem já resolveu a rastreabilidade do grão: o mesmo dado que libera a entrada é o que sustenta o produto de maior valor.

07Limites desta análise

Dossiê setorial de amostra, construído sobre fontes públicas consultadas em agosto de 2026. Quatro ressalvas: (i) o EUDR já foi adiado uma vez e simplificado outra — a revisão de 4 de maio de 2026 manteve as datas, mas o assunto segue politicamente vivo e merece acompanhamento trimestral; (ii) as alíquotas de 7,5% e 9% e o prazo de quatro anos devem ser conferidos linha a linha por NCM no cronograma do acordo, publicado no portal Siscomex, e não por analogia; (iii) o limiar de quatro hectares para exigência de polígono está no texto do regulamento e deve ser lido no original antes de qualquer decisão de investimento em mapeamento; (iv) nada aqui substitui parecer de consultoria ambiental, engenheiro agrônomo ou advogado — este documento diz onde olhar e em que ordem.

Este dossiê é uma amostra

Ele foi escrito sobre o setor. Um dossiê sob medida é escrito sobre a sua operação: os seus compradores europeus e o prazo de cada um, o seu fluxo de mistura, a sua exposição por NCM e o que falta na sua pasta de rastreabilidade — apresentado com recomendação e prazo.

Falar sobre um dossiê sob medida

Referências

  1. EUR-Lex — Regulamento (UE) 2023/1115 (EUDR)
  2. Baker McKenzie — Comissão publica a revisão de simplificação do EUDR (maio de 2026)
  3. QIMA — EUDR adiado para 2026/2027: nova linha do tempo e simplificações
  4. Conselho Nacional do Café — Parlamento Europeu confirma o adiamento do EUDR
  5. ClimaInfo — Parlamento Europeu aprova adiamento da lei antidesmatamento
  6. Cecafé — Classificação de risco de países no EUDR e seus efeitos
  7. EY — Simplificações e prorrogação do prazo do EUDR
  8. Folha Vitória — ES concentra 69% da área de conilon do Brasil
  9. ES Hoje — Produção capixaba lidera o conilon e bate recorde
  10. Governo do ES — Protagonismo capixaba na produção e exportação de café
  11. Incaper — Cafeicultura capixaba: 131 mil famílias, 73% de base familiar, média de 8 hectares
  12. Incaper — Café conilon
  13. ES Brasil — Selo Verde: passaporte do agro capixaba para o mercado europeu
  14. AL-INVEST Verde — Apoio ao Espírito Santo na implantação do Selo Verde
  15. GMC Online — Mercosul–UE: café e frutas com tarifa zero
  16. Revista FT — O EUDR e seus impactos na cadeia produtiva do café do Espírito Santo

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